A notícia de que moradores irão demolir a antiga capela de S. Judas Tadeu em Itaóca pegou a muitos de surpresa.

Com o pretexto de ampliar o espaço litúrgico e proporcionar mais conforto para os fiéis que afluem ao local, a nova construção irá cercar a antiga e depois destruí-la.

Isso nos remete a algumas considerações.

Primeiro, tomando a Capela de Itaóca como exemplo, é que os moradores da cidade não conhecem quase nada da história de São Gonçalo. Isso pode ser provado pois os que desejam certas mudanças estão por aqui ha cerca de 10 anos e nada sabem do que existia no passado.

 

Década de 1930. Autor desconhecido. São Gonçalo Cinqüentenário.

 

São Gonçalo – e todo o Recôncavo da Baía - sofreram um brutal aumento demográfico depois da construção da Ponte Presidente Costa e Silva em 1974.

O que antes era feito por meio das antigas barcas do STBG1 (para pessoas) e das barcaças (para veículos) foi aumentado com o afluxo de pessoas da capital para estes lados. Mas aumentou mais ainda quando do traçado da BR-101 passando pelo território da cidade foi inaugurado na década de 1980. Inclusive, ambas as construções fazem parte da BR-101 que liga o Nordeste ao Sul do país.

Neste grande afluxo, surgiram as primeiras favelas da cidade e a favelização de bairros como o Salgueiro, Fazenda dos Mineiros e outros.

Os novos moradores nada sabiam da história de onde estavam fixando moradia e as atitudes contra o patrimônio material e imaterial só tendeu a aumentar.

Um exemplo disso é a descaracterização de igrejas e mesmo a destruição completa de algumas, como o Templo Batista, ao lado do Templo atual, na rua Moreira César. A pequenina igreja ainda era utilizada para alguns cultos, como o chamado “Culto do Meio Dia”, realizado diariamente. A pretexto de atrapalhar na construção do Centro Evangelístico ao lado do tempo atual, o antigo templo, construido pelo pastor Waldemar Zarro, foi demolido. E com ele décadas de história do protestantismo batista na cidade.

A igreja de Nossa Senhora da Conceição no bairro de Pachecos é outra citação.

Frequentada por S. Alteza, o Imperador D. Pedro II, como também por parte da Corte do Rio de Janeiro, inclusive a Princesa Isabel, a igreja teve seu baldaquino2 destruido na decada de 1990 pelo pároco e moradores sem motivo aparente. O baldaquino era um antigo recurso para dar à igreja a dignidade de ser frequentada pelo Rei. Era para as igrejas o mesmo que a plantação de palmeiras imperiais na frente das Casas de Fazenda frequentadas pelo Imperador. Nossa Senhora da Conceição era, das invocações da Virgem Maria, a de maior devoção de D. Pedro II que fazia questão de visitar a igreja, vindo da Corte.

A capela de Itaóca, na rua de acesso ao porto chamado de “Caieira” - rua Antonio Leoncio - pertencia à Fezenda do local e é apenas uma pequena construção que configura mais um oratório do que uma capela.

Fez parte da vida de várias gerações desde 1928, ano em que foi construído.

Nada justifica sua demolição.

 

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1- Serviço de Transporte da Baía de Guanabara. Depois de alguns anos mudou de nome para CONERJ (Companhia de Navegação do Rio de Janeiro). Ambas empresas estatais que depois da privatização tem o nome de Barcas Sociedade Anônima.

2- obra de arquitetura ou remate escultórico constituído por uma cúpula sustentada por colunas e que resguarda um altar, um retábulo, uma escultura ou um portal.

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