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Vilma Homero

 

Num país que dizem não ter memória, pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) estão resgatando a história de São Gonçalo, município onde está instalado o campus regional da universidade. A idéia, que partiu dos professores Luiz Reznik, um dos contemplados no edital Primeiros Projetos, da FAPERJ, e Márcia de Almeida Gonçalves, da mesma universidade, teve vários desdobramentos e chegou à descoberta de dados curiosos: o município foi um reduto de cristãos novos, no século XVII, e viveu seu boom industrial entre os anos 1930 e 1950, quando chegou a ser chamado de Manchester fluminense.

O projeto, que começou em 1995, é amplo. “É uma pesquisa de identidade. Uma forma de contar o passado daquela localidade não só como interesse acadêmico, mas também por interesse pedagógico”, diz. Além de haver despertado a curiosidade dos alunos do curso de formação de professores, resultou em diversas monografias. “Os recursos recebidos do programa Primeiros Projetos nos tornaram possível não só organizar, copiar e digitalizar perto de três mil fotos para a Internet, como permitiram finalizar o livro a ser publicado em breve sobre o movimento estudantil gonçalense”, conta o historiador.

Com verbas também do CNPq, a pesquisa desdobrou-se ainda numa grande exposição de fotos itinerante, seminários e a organização do próprio site, em que boa parte desse material está disponível para um público mais amplo, ajudando a aproximar a universidade da comunidade local. Até o fim do ano, com o apoio do MEC, sai a primeira caixa de histórias com propostas metodológicas para auxiliar os professores a repassarem todo esse conhecimento a estudantes do ensino fundamental.

A história de São Gonçalo, por sinal, vai bem além do perfil de mera cidade-dormitório. Habitada pelos tupinambás, a região foi dividida em sesmarias e distribuída aos colonos que  lutaram contra os invasores franceses, no século XVI, refletindo o interesse da Coroa portuguesa em povoar e fixar sua posse nessas terras. No século XVII, já uma próspera freguesia, São Gonçalo foi palco de um grande conflito, que se espalhou por toda a capitania. Liderada por Jerônimo Barbalho Bezerra, dono de terras no recôncavo gonçalense, a Revolta da Cachaça foi fruto da insatisfação diante dos tributos que o governador Salvador Correia de Sá e Benavides impunha à população sem autorização régia.

Em 1660, aproveitando uma viagem do governador, os gonçalenses invadiram a Câmara do Rio de Janeiro e instituíram um governo revolucionário por cinco meses. A revolta terminou com a morte do líder e a prisão dos insurgentes. Mas também levou a Coroa a reconhecer suas reivindicações. “A revolta demonstrou que os colonos se organizavam e eram coesos em torno de seus interesses”, explica Reznik.

Dos cristãos novos que ocupavam a região da Fazenda Colubandê — senhores de engenho, lavradores de cana e de mandioca, um soldado infante e um médico —, sabe-se que foram presos entre 1708 e 1725, e levados ao Santo Ofício da Inquisição, em Portugal. De sua presença, resta hoje apenas a capela da fazenda, declarada patrimônio histórico local desde 1939.

Já no século XX, o município convive à sombra de duas capitais: Rio e Niterói. Até que, entre os anos 1920 e 1950, uma conjunção de fatores — a expansão da via férrea e os vários portos existentes pela baía, facilitando o escoamento de produtos por mar, a proximidade da capital federal e a oferta de terras baratas na região – transforma São Gonçalo em pólo da industrialização fluminense. Instalam-se por lá empresas de porte, como a Cimento Portland-Mauá; a Fósforos Fiat Lux; siderúrgicas, como o grupo Hime; e diversas olarias, ainda hoje típicas daquela área. Afinada com o processo de urbanização brasileiro que se desenvolve com a era Vargas, a região passa a ser chamada de Manchester fluminense e dá origem a um forte núcleo operário.

De 40 mil habitantes, a população passa, nos anos 1950, a 100 mil, e continua dobrando a cada década. O que coincide com o declínio da produção agrícola e leva, entre 1940 e 1950,  as grandes fazendas a se tornarem loteamentos urbanos. São empreendimentos, como Jardim Catarina, Mutuá, Trindade, que mais tarde dão origem a bairros populares. Mas sem novos investimentos, a indústria gonçalense perde terreno para os novos pólos que surgem nos municípios vizinhos. Ao mesmo tempo, a busca de locais mais baratos de moradia por migrantes de outros estados — atraídos pela possibilidade de trabalho na capital federal, que não tem como abrigá-los —, vai aos poucos transformando o perfil de São Gonçalo no que ele é até hoje.

Reznik fala também da importância dos estudantes na história local. Engajados na Associação Gonçalense de Estudantes, entre 1948 e 1968, eles foram forte presença no movimento estudantil nacional e até mantiveram um jornal, A Voz da AGE. Apesar de reivindicar medidas como a redução do preço dos transportes e das mensalidades escolares, eles também espelhavam o perfil conservador daquela sociedade, defendendo os valores da família e da igreja, e contrários ao comunismo. “Boa parte dos presidentes da AGE desse período chegaram à política, eleitos vereadores e deputados, seguindo a vocação da entidade de formação de lideranças”, conta.

Na política, por sinal, não faltaram personagens ilustres. O médico Luiz Palmier foi um deles. Sua atuação destacada durante a gripe espanhola, em 1918, quando atendia doentes de casa em casa, logo chamou atenção. Também participou do grupo que conseguiu, graças a um convênio com a Fundação Rockefeller, a construção de um posto de saúde local. Do posto de saúde, Palmier passou a organizar a população para a criação de um hospital, fundado em 1934.

Essa atuação lhe valeu sucessivos mandatos políticos e o consagrou como personalidade reverenciada, agente da cultura e da modernidade. Seu nome aparece ligado a diversas entidades, como o Liceu e Instituto de Educação do Estado do Rio de Janeiro (Liceu Nilo Peçanha), ou o Lactário do Instituto Gonçalense de Amparo à Maternidade e à Infância (com sede em sua chácara), a biblioteca que leva seu nome e várias outras iniciativas sociais.

Mas o nome que agora ocupa a atenção de Reznik é o do antigo prefeito Joaquim Lavoura, que entre 1955 e 1975 dominou a política local, primeiro como vereador e depois como deputado estadual. “De cabelos e roupas desalinhadas, ele se dizia apolítico e defendia a bandeira da moralidade e da honestidade. Ele era o Jânio Quadros gonçalense”, explica o professor. Empreendedor, aparecendo em várias fotos em meio a canteiros de obras, Lavoura sempre conseguiu eleger seu sucessor. “Ele foi por 20 anos o político mais influente da região”, fala Reznik entusiasmado, para logo concluir: “Estamos apenas no começo, mas pelo visto ainda há muito a pesquisar...”

 

© FAPERJ – Todas as matérias poderão ser reproduzidas, desde que citada a fonte.

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