Encontrar a origem das palavras que designam determinado logradouro público, bairro ou acidente geográfico é um bom caminho para o conhecimento da História, diziam-me alguns professores com os quais sempre tive contato. São Gonçalo não foge a esta regra e, por isso, decidi investigar sobre uma palavra que, desde a meninice, muito me intrigava. Brandoas (hoje no singular, Brandoa) era ela, que me chamava a atenção ao passar de bonde e, depois, de ônibus, pela Via Porto Velho, na altura do bairro Vila Lage. Designa um rio, hoje transformado em infecto valão, que vem das bandas do Engenho Pequeno, atravessa Sete Pontes (em que toma o nome de Rio Paraguai), passa pelo Barro Vermelho e chega ao Paiva, onde deságua na Baía de Guanabara.

     Primeiramente, recorri aos dicionários em português e nada achei. Depois, fui aos que abrangiam o tupi-guarani e continuei na mesma. Por fim, tentei localizar alguma origem africana. Nada. Deixei para lá, até que tropecei com uma mensagem de presidente da província do Rio de Janeiro, Manuel Travassos, à Assembleia Legislativa Provincial referindo-se à Ponte do Brandão, nas Neves (como então já era chamado o atual distrito).

        Depois, ao ler obra da historiadora Talita de Oliveira Casadei, vi a citação dela de que encontrara no Cartório Kopp, em Niterói, escritura de venda, em 1839, de fazenda do brigadeiro Luiz Pereira da Nóbrega e Souza Coutinho (ministro da guerra de D. Pedro I, de 27 de junho a 28 de outubro de 1822, e presidente da Câmara dos Deputados em 1826), nas Neves, fazendo limite com a fazenda de Luiz da Silva Brandão. Tudo começava a se encaixar. Se o nome da ponte era Brandões (naquele tempo, os sobrenomes familiares eram usados no plural ao designarem localidades, como Cordeiros e Pachecos), como virou Brandoas?

         O esclarecimento veio do pesquisador em História Emmanuel de Macedo Soares: Carlos Grandmasson Rheingantz (Petrópolis, 13-02-1915/16-08-1988), um dos principais genealogistas brasileiros, registra vários sobrenomes no feminino, quando aplicados a mulheres casadas e mesmo filhas de pais vivos. Portanto, nada mais natural que a aplicação daquele uso corrente ao caso gonçalense, ou seja, de Brandão ou Brandões mudar para Brandoa ou Brandoas. Embora ele ponderasse ser mera suposição, aceitei-a como a única explicação razoável.

 

     Mas, afinal, que família era essa?

      Um dos seus mais importantes membros foi Ladislau da Silva Brandão, fazendeiro aqui, que testemunhou a instalação da Vila Real da Praia Grande e a eleição de seus primeiros camaristas, em 11 de agosto de 1819, prestou juramento (prévio, em 28 de fevereiro de 1821; e às bases dela, em 28 de junho seguinte) à Constituição Portuguesa e firmou a ata de aclamação do imperador, dom Pedro I, em dois de dezembro de 1822. De 15 de janeiro a meados de setembro de 1829 exerceu o mandato de vereador; elegeu-se juiz de paz da freguesia de São Gonçalo em sete de setembro de 1832; nomeado capitão da Guarda Nacional (GN) em 1832, implantou a primeira companhia da milícia, em 18 de outubro foi nomeado tenente-coronel e comandante da legião de São Gonçalo, e em 30 de dezembro era elevado a primeiro comandante da GN em Niterói e Magé; em 17 de fevereiro de 1833, prendeu o padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte (acusado de fazer parte da conspiração para o retorno de dom Pedro I e a derrubada da regência que governava o país até o imperador Pedro II chegar à maioridade), em seu sítio, na fazenda de Ipiíba, e o removeu para a cadeia da Praia Grande (Niterói); reeleito juiz de paz do primeiro distrito de São Gonçalo em setembro de 1840, Ladislau passou o comando da Guarda Nacional ao coronel Belarmino Ricardo de Siqueira (futuro Barão de São Gonçalo) em 27 de junho de 1842; novamente eleito vereador em sete de setembro de 1844, tomou posse em sete de janeiro de 1845, mesma data em que foi reinvestido no cargo de juiz de paz gonçalense; e a oito de março daquele ano, juntamente com os vereadores Manuel de Frias Vasconcellos e padre Marcelino (por ele preso doze anos antes), foi designado para representar a Câmara de Niterói no batizado do príncipe dom Afonso, primogênito de dom Pedro II.

     Outro importante membro dessa família foi José da Silva Brandão, médico cirurgião e fazendeiro em Neves, cavaleiro das Imperiais Ordens da Rosa e de Cristo, nascido em 1809 e casado em 1834, na Matriz de São Gonçalo, com Custódia Maria de Aguiar Brandão. Ele faleceu em 27 de fevereiro de 1858 (dois anos depois de se candidatar a vereador e não se eleger) e ela em 25 de junho de 1864.

     José e Custódia tiveram vários filhos, entre eles Luiz [Augusto] da Silva Brandão, que se tornou médico, cirurgião do primeiro batalhão da Guarda Nacional na Corte, tenente-médico do exército, cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa, diretor da Higiene Pública na Corte, integrante da Santa Casa de Misericórdia e autor de vários estudos científicos sobre as doenças que atingiam a capital do império. Nascido em 1833 em São Gonçalo, casou-se em 11 de novembro de 1856 com Carolina Augusta Borges Monteiro Brandão (filha do Visconde de Itaúna, Cândido Borges Monteiro – 12-10-1812/25-08-1872 –, também proprietário de terras em São Gonçalo e nome de rua no bairro do Gradim), a quem deixou viúva e com onze filhos em seis de maio de 1883, no Rio de Janeiro. Era lá que residia e casou duas filhas, no dia dois de maio, para vir a falecer, de fulminante enfarte, quatro dias depois, quando atendia a um paciente. Em sua memória, o poeta Júlio Borges fez publicar um poema em vários jornais.

     A família Brandão voltou a residir em São Gonçalo e aqui ficou por vários anos, sendo dela uma das principais obras de arte mortuária no Cemitério Principal, feita pelo escultor italiano Francesco Orlandi Petrucci. O sobrenome da família está perpetuado na designação do Rio Brandoa (s).

 

 

 

 

 


Fontes:

Mensagem do presidente da província Manuel José de Freitas Travassos, em 08/09/1873, relatório das estradas de ferro, p. 53.

A Pátria, 28/08/1856, p. 2, e 26/02/1858, p. 3.

O Fluminense, 09/05, p. 2, e 11/05/1883, p. 3.

Blake, Augusto Vitorino Alves Sacramento, Dicionário Biográfico Brasileiro.

Jornal do Commercio, 07/05/1883, p. 6.

Casadei, Talita de Oliveira, A Imperial Cidade de Nictheroy, p. 87, 88, 259 e 260, Serviços Gráficos Ímpar, 1998.

Emmanuel de Macedo Soares, Dicionário Histórico e Biográfico, vol. 12, pág. 264 a 266.

Almanak Laemmert para 1846, p. 19; para 1850, p. 79; e para 1860, p. 189 do suplemento.

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