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Sociedade de Artes e Letras de São Gonçalo:

o tempero da Cultura

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Texto descritivo da cidade de São Gonçalo em 1940, narrada pelo professor e escritor Luís Gastão Scragnolle Doria (1869 – 1948). Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Como bom saudosista, deixou um belo texto que pode ser apreciado através da extinta Revista da Semana, consulta pelo site da Biblioteca Nacional. Uma descrição minuciosa de uma cidade que acolheu pessoas importantes no século passado, narrando não só as belezas e os monumentos do município, mas também fatos curiosos sobre a abrangência do território gonçalense em uma época em que Itaipu, Piratininga e Itacoatiara faziam parte do território de São Gonçalo, incluindo as igrejas de São Sebastião de Itaipu e a de Nossa Senhora do Bom Sucesso em Piratininga.

 

Segue esse saudoso texto de uma época que não volta mais...

 

Realmente alto a história da terra fluminense o atual município de S. Gonçalo de sede na cidade do mesmo nome e da mesma invocação de santo. Município e cidade até 1929 foram sujeitos a subidas e descidas de categoria administrativa. Celebra agora meio século de elevação a vila da freguesia de S. Gonçalo desanexada do município de Niterói. Para ser avaliada a ancianidade só da matriz de S. Gonçalo basta dizer que ela já presidiu a vida e ao sumir das gerações de três séculos.
Festividades de todo o gênero transcorrem em um dia ou em vários dias, felizes as de retentiva em uma época. Entretanto certas festividades aspiram a sair da lembrança de coevos para entrada na consideração de vindouros por meio de memórias históricas tanto mais prezáveis quando mais despretensiosas. A verdade dispensa gongorismos, a mitologia a tendo feito surgir nua de um poço.

O cinqüentenário de S. Gonçalo causou o aparecimento de Memória histórica de boa espécie e da pena do Dr. Luiz Palmier. Propagar as excelências do torrão Gonçalense, o esforço dos seus habitantes, as vantagens obtidas ou por obter de útil sobre histórico recanto da província fluminense, tal tem sido o programa da existência do Dr. Luiz Palmier. A memória da sua lavra - São Gonçalo Cinqüentenário - pedimos auxílio para apresentação de algumas informações relativas a paróquia criada por alvará de 10 de fevereiro de 1647. E hoje município de mais de 1000,000 almas, 70,000 residentes contando a cidade de S. Gonçalo. Dissemina-se o resto da população por 6 distritos todos de aspectos merecedores de nota, ensejando ao turismo deleitosas excursões, dessas que costuma empreender o arrojado Centro Excursionista Brasileiro.

Vive o turismo principalmente da contemplação de natureza e de monumentos às vezes para oferecerem a um turista inesperado ou surpreendentes espetáculos. Dividem-se os excursionistas em dois grupos distintos, o grupo dos que viajam ou passeiam só para dizerem que viajaram ou passearam e o grupo dos que correm mundo ou visitam terras parando, compreendendo e sentindo no presente e no passado.

Para o turista de marca que se abaliza em amor pátrio, o município de S. Gonçalo é campo aberto a maravilhas de natureza que extasiando todos mais dizem aos brasileiros.
Há quem nos culpe por exaltarmos em demasia nossa natureza, sem atentar que todos os países nos dão exemplo por mil meios chamando atenção sobre os encantos de seus sítios, ás vezes mais sítios que encantos. Melhor é louvar natureza que bajular homens.

No município de S. Gonçalo e seus distritos dois aspectos opostos se apresentam o do litoral, e do interior. No litoral domina a grandeza sobresselente do Atlântico, no interior das terras são Gonçalense é de traço a geometria dos rios, em retas ou curvas.
No município de S. Gonçalo a zona praiana vai de Itaipu e Piratininga, nome de tanto eco paulista, a Itacoatiara, nome de tanto eco amazônico. Na região das praias, à beira destes vivem pescadores, mais longe um pouco habitam agricultores, tudo gente para há quais os dias passam tranqüilos, a clareza de sucessos não lhes dando maior valia.

Itaipu e Piratininga não se contentam em ter praias, suas lagoas completam-lhes atrativos. Não basta, porém, conhecer a existência de tais lagoas, cumpre descobri-las. Fecham-lhes os círculos densos arvoredos postos de guarda a águas que se arrepiam ou se encrespam e o encrespar de águas nas lagoas vezes sem conta, como na lagoa de Araruama, se equipara a fúrias de oceano.

Quantos prezam o homem e sabem que o Brasil não nasceu hoje, nem vão morrer amanhã, os monumentos do município de S. Gonçalo inspiram desejo de lhes conhecer razão de memória. Por que os levantaram? Quem os levantou?

A maior parte dos monumentos gonçalenses avulta em igrejas e capelas, de presença muito natural num país descoberto á sombra da Cruz e numa nação católica por maioria. Seus primeiros mestres de cultura, seus primeiros diretores de fé foram os jesuítas. Em prova da presença deles na zona lacustre-atlântica de S. Gonçalo fincaram edificações. O caso dos anos e o descaso dos homens ainda não conseguiram destruí-los.
As ordens religiosas geralmente para suas construções buscam as eminências, amando as perspectivas, os infinitos dos horizontes, os quais parecendo cada vez mais perto se esquivam no cada vez mais longe. O mesmo se dá com a felicidade.
Em Itaipu os jesuítas puseram a Igreja de S. Sebastião numa encosta do bosque, o templo alcanforado sobre o oceano e uma lagoa, à massa de pedra sobranceira à massa das águas.
Numa colina marginal da lagoa de Piratininga os jesuítas ergueram uma capela nesta empregando a arquitetura clássica da Companhia de Jesus. No testemunho do Dr. Luiz Palmier, a capela de Piratininga está bem conservada pela boa vontade do Sr. José Lopes, dono da fazenda onde situada a capela, o mesmo Senhor Já tendo construído outras igrejas no distrito de Itaipú. Louvado seja o protetor do passado.

Não é possível esgotar aqui lista dos monumentos bem conservados, em ruínas ou próximos delas do município de S. Gonçalo em cujas fazendas, sítios, lojas comerciais ou residências particulares ainda se não perdeu o cunho da época colonial.

No passado de S. Gonçalo se incluem para recomendar o município não poucos filhos ilustres, alguns dos quais de projeção na vida nacional, um visconde de Sepetiba nascido em Itaipú, um visconde Beaurepaire Rohan, de berço em Sete Pontes, freguesia de S. Gonçalo.

A memória do Dr. Luiz Palmier consigna os nomes de outros Gonçalenses de vida prestigiosa e digna, entre eles o Cônego Ferreira Goulart, tipo desses senhores do interior para os quais grandes prestígios político só redundavam em benefício tal e um delicado poeta, Alberto Silva, autor das Matinais, título de anuncio a breve existência.

Proclamada a República, recolheu-se a sítio gonçalense um nobre filho do Império, orgulho da Bahia, o senador Joaquim Jeronimo Fernandes da Cunha, respeitado pelos seus maiores rivais de eloqüência já forense, já parlamentar.
Não aderindo ao regime republicano, Fernandes da Cunha, pobre e recebendo publicamente pensão concedida por Deodoro, chefe de Governo Provisório, pediu a viver no município de S. Gonçalo, em um sítio no Rio do Ouro, em margem à antiga enseada de Maricá acompanhada pelo rio Aldeia, em certo trecho conhecido como Rio do Ouro.

Falecendo Fernandes da Cunha em Niterói, cercado de filhos extremosos, recebeu por ocasião do seu desaparecimento, no tumulto de uma sociedade nascida da noite para o dia, as mais expressivas homenagens. Muitos ainda haviam chegado a tempo de presenciar os trunfos oratórios de Fernandes da Cunha na Câmara e no Senado, ali vulto verdadeiramente consular. Se algum dia for traçada biografia completa do senador Fernandes da Cunha melhor epigrafe não encontrará o biógrafo a do que o julgo do barão de Rio Branco no próprio dia da morte do ínclito brasileiro. Dele um descendente, o Dr. Fernandes da Cunha Filho, outrora professor do Colégio Pedro Segundo continuou tradições de inteligência, cultura e honradez.

Era dever nosso lembrar Fernandes da Cunha, o solitário do Rio do Ouro, recolhida a mudez voluntária após ter sido o emulo dos maiores oradores parlamentares pátrios bastando-lhe assomar á tribuna para que o silêncio mais completo se estabelecesse em assembleias agitadas.

Rendido o pleito a quem conheceu S. Gonçalo e pediu asilo para últimos dias de caráter, não nos é difícil, antes grato, tornar a ocupar-nos diretamente com o município tão vizinho de Niterói e de não poucas relações com o Rio de Janeiro.
As terras de S. Gonçalo foram objeto de menção de viajantes ilustres, um o príncipe Maximiliano de Wied Neuwied, em certo entardecer hóspede de uma venda perto da qual se ia a sussurro o curso do Guaxindiba.

O progresso de município de São Gonçalo tem recebido impulso de não poucas administrações confiadas a prefeituras, a atual prefeitura exercida pelo Dr. Nelson Correia Monteiro procurando ser útil e previsor no solver problemas administrativos.
Nem faltam à administração municipal de S. Gonçalo exemplos de dirigentes dedicados. Na impossibilidade de citá-los todos os consubstanciaremos na pessoa de um a do Dr. Stephane Vannier, bacharel em letras pelo antigo Colégio Pedro Segundo e engenheiro civil cuja administração mostrou que o tempo passado pelo Dr. Vannier na Escola Politécnica não foi tempo perdido.
Não ha administração sem colaboração. Os administradores de S. Gonçalo desde muito a tem encontrado por parte de incansáveis municípios que a Memória Palmier põe em relevo. Assinala a citada Memória Belarmino Ricardo Siqueira como dos mais graduados dos brasileiros com serviços prestados a São Gonçalo. Fluminense de Saquarema Siqueira foi um desses grandes senhores territoriais na Inglaterra chamados landilords. O seu solar do Engenho Novo, em Cordeiros, recebeu visitas de D. Pedro 2º. Desde tudo este agraciou com o expressivo sobre justo título de Barão de São Gonçalo. O fazendeiro, que sabia tanto tratar-se quanto bem tratar os outros em casa, falecendo em 1873 deixou livres os seus escravos e cuidando-lhes de futuro legou-lhes terras e saberes. Nada de escrever a história da nossa Abolição sem o minucioso exame dos fatos, a imparcialidade dos juízes, nem apresentar a escravidão no Brasil simplesmente em círculos de vivo inferno dantesco. Ao grupo dos maus senhores de cativos, entre os quais senhores negros e mestiços seria oposto o dos bons ou ótimos senhores, raros os pertencentes á raça escravizada.

Nosso Brasil é fértil em denominações pitorescas tanto quanto em alcunhas de grande ou não. Uma das estações do ramal litorâneo da ferrovia Leopoldina conservou o nome de Porto da Madama, embora se não encontre vestígio algum de antigo ramal ferro de cerca de um quilômetro indo da estação ao mar e utilizado pelo industrial Paulo Leroux para transporte de canoas ao seu engenho, centro industrial e agrícola da região.
Porto da Madama provem de batismo popular, e os batismos da espécie tão persistentes. Consagrou um até hoje e promete consagrar além o nome da senhora francesa Madame Maria Margarida Bazin Desmarest, avô do Dr. Paulo José Leroux.
Principio de transporte foram em São Gonçalo pequeninos trens, ou antes, bondes a vapor, tendo a lenha por combustível, esse a deixar fagulhas. O povo logo batizou como bondes de fogo os da empresa Gianelli, dos irmãos Carlos e Leopoldo Gianelli, acatado empreendedores.

Tudo quanto fica por dizer de S. Gonçalo será encontrado em cópia na memória do município devido ao Dr. Luiz Palmier celebrando meio século Gonçalense. A leitura da obra é brasileiramente proveitosa; que não lhe falta leitores, nem aplausos e visitas a São Gonçalo.

Luís Gastão Scragnolle Doria

 

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