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Se alguém supõe que o propósito é falar de Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, assassinado em 22 de dezembro de 1988 por sua luta em defesa da Amazônia, enganou-se redondamente. Embora eu tenha muita admiração por ele, pois acompanhei, pelo noticiário dos jornais, a campanha que realizou desde 1970 até sua morte, entendo que São Gonçalo já lhe prestou a devida homenagem, dando seu nome a uma de nossas praças públicas, no bairro de Alcântara, e cuja denominação quase foi mudada pela prefeitura em 2010, provocando grande reação de pessoas inteligentes e recuo momentâneo das autoridades locais que pretendiam praticar o delito histórico. Ficaram em silêncio durante dois anos e, em 27 de dezembro de 2012, inauguraram a praça reformada, dando-lhe o nome de Praça da Bíblia. A memória de Chico Mendes foi pra cucuia.


Porém, nossa cidade tem várias outras relações com o Acre, como a de ter sido nosso prefeito o major do Exército Samuel Barreira (16-08-1870/17-01-1957), de dois de julho de 1931 a 22 de dezembro de 1932, depois de haver ocupado, na patente de capitão, o cargo de prefeito do Departamento de Alto Purus, no Acre, de 1909 a 1910; e a de aqui servir como oficial e comandante do 3º Regimento de Infantaria o coronel Paulo Francisco Torres (29-05-1903/12-01-2000), que governou o Acre, de 1955 a 1956, e também o Estado do Rio de Janeiro, de 1964 a 1966, foi nosso senador e deputado federal.


Mas há outro personagem tão importante para nosso município como aqueles três. Trata-se do coronel Rodrigo de Carvalho.


Nascido na cidade do Rio de Janeiro em 28 de abril de 1861, ali teve comércio e depois mudou-se para Cantagalo, no interior fluminense, onde também foi comerciante. Espírito inquieto, decidiu ir para o Amazonas, em 1896, tendo sido nomeado fiscal do governo amazonense em Caquetá, no Acre (ainda pertencente à Bolívia), para cobrar os impostos da produção da borracha.
A função pública permitiu-lhe acompanhar a vida dura dos seringueiros e também a aventura do espanhol Luiz Galvez Rodrigues de Arias (1864-1935), que proclamou a Primeira República do Acre em 14 de junho de 1899, a qual foi dissolvida pelo governo brasileiro, havendo Galvez viajado para Recife e dali para a Europa. Insatisfeito, Rodrigo de Carvalho juntou-se à chamada Expedição dos Poetas e partiu em um pequeno navio de Manaus para o Acre, onde foi proclamada a Segunda República local e ele aclamado presidente, em novembro de 1900. Porém, a experiência durou pouco, porque as forças armadas da Bolívia derrotaram o grupo um mês depois.


Em seis de agosto de 1902, o governador amazonense contratou o coronel gaúcho José Plácido de Castro para promover a revolução acriana, a ele se juntando Rodrigo de Carvalho, que recebeu a tarefa de organizar burocraticamente a retaguarda e que participou também dos vários confrontos havidos com os bolivianos, até que a terceira República do Acre foi proclamada pelos dois em 27 de janeiro de 1903.


Enquanto os combates prosseguiam no terreno da Amazônia, o governo brasileiro, pelo ministério das Relações Exteriores, fazia negociações com a Bolívia, que resultaram na assinatura do Tratado de Petrópolis, em 17 de novembro de 1903, em excelente trabalho do consolidador das fronteiras de nosso país, o barão do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos Júnior, 20/04/1845-10/02/1912). Com isso, o território antes boliviano tornou-se brasileiro. Porém, o desejo do governante amazonense de incorporar a nova área à sua jurisdição administrativa foi em vão: o governo central criou o Território Federal do Acre, dividiu-o em departamentos (prefeituras) e nomeou seus dirigentes. Em reconhecimento à sua luta, a União concedeu a Rodrigo de Carvalho o título de coronel honorário do Exército.


Restava-lhe, ainda, participar da elaboração da Bandeira do Acre: ela fora lançada em 1899 por Galvez, constituída de dois triângulos, um verde e outro amarelo, simbolizando a esperança e a paz. O coronel Plácido de Castro adotou-a, mas invertendo a posição dos triângulos. E o coronel Rodrigo de Carvalho sugeriu a colocação de uma estrela vermelha (que lá está até hoje), para simbolizar o sangue derramado pelos que lutaram na revolução acriana.


Toda esta experiência levou Rodrigo de Carvalho a abandonar o serviço público e adquirir dois seringais, com os quais se tornou riquíssimo. Porém, o declínio do ciclo da borracha fê-lo voltar à pobreza e suas amizades lhe renderam a nomeação para dirigir o cartório de registro civil de Caquetá, no Acre. Porém, não era isso que ele queria.


Vivendo pauperrimamente, pegou suas últimas economias e veio para São Gonçalo, em 1920, aqui comprou um sítio e deu-lhe o nome de Xapuri (por coincidência, o nome do município onde anos depois seria assassinado Chico Mendes), saudoso do Acre. Ativo, em 1923 participou da criação da Cooperativa de Fruticultores (presidida pelo também sitiante em Tribobó, Viçoso Jardim), de que foi secretário, e estimulou as exportações dos frutos aqui cultivados. Ele próprio exportou para a Alemanha, em 1926, cem caixas de laranja, conforme ofício enviado em outubro daquele ano ao presidente (governador) Feliciano Sodré.


Dedicava-se também a outros trabalhos de interesse coletivo, como a participação na campanha para a criação do Hospital de São Gonçalo (atual Luiz Palmier) e a elaboração do primeiro levantamento estatístico sobre a cidade, que ofertou gratuitamente à prefeitura em 1930.


Irritado com as novas versões que os historiadores davam à Revolução do Acre, fez longo relatório dos fatos ocorridos e o exibiu na redação do jornal Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, na data de seu aniversário, mas faleceu repentinamente, no seu sítio Xapuri, no dia imediato, 29 de abril de 1935, e seu trabalho foi perdido.


Casado com Aurora de Oliveira Carvalho, com ela teve os filhos Marina de Carvalho (Quintão, pelo casamento), Rodrigo Filho, Luiz, Maria de Lourdes e Raul, estes últimos de 14, 10, 7 e 6 anos, na data de seu falecimento.


Sepultado no cemitério de São Gonçalo, o coronel Rodrigo de Carvalho é patrono de rua no bairro Mutuá. E foi retratado na Rede Globo de Televisão pela minissérie “Amazônia, de Galvez a Chico Mendes”, escrita por Glória Perez e apresentada de 21 de janeiro a seis de abril de 2007, tendo a interpretar aquele personagem histórico, Rodrigo, o ator Werner Schünemann.

 

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Fontes:
Revista de História da Biblioteca Nacional, nº 39, novembro de 2008, p. 86.
Sítio do Senado da República na web.
O Fluminense, 06-10-1926, p. 1, Biblioteca Nacional.
Correio da Manhã, 28-11-1923, p. 6; e 01-05-1935, p. 5, Biblioteca Nacional.
O São Gonçalo, 29-12-2012, p. 1 e 3.